“Mas o que sai da boca procede do coração, e isso contamina o homem. Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias. São estas coisas que contaminam o homem; mas comer sem lavar as mãos, isso não contamina o homem.” Mattityahu 15:18-20

Observe o detalhe? Lavar as mãos!

Disse-me alguém enfaticamente: “Eu como caranguejo, siri, lagosta, camarão, peixe de couro, enfim, tudo que Moshé proibiu, porque quem autorizou a comer não foi o homem, mas o próprio Yeshua.”

Depois, aquele amigo querido citou o verso 11 de Mattityahu 15, que diz: “O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem.”

Este apetite descontrolado está fundamentado em um verso isolado que desfigura o contexto, fato que me proponho dissecar agora, por amor a cada um que se diz verdadeiramente servir ao Eterno de Yisrael, Pai do nosso mestre Yeshua HaMashiach.

Em primeiro lugar, aquele homem equivocou-se ao dizer que quem proibiu comer carnes imundas foi Moshé. Não! O Eterno é quem proibiu em Vayikrá 11 e reafirmou em Devarim 14. Em segundo lugar, Yeshua é obediente a tudo que o Eterno estabeleceu e, como tal, se ele ensinasse a desobedecer às regras do Pai, estaria contradizendo tudo o que o Pai disse e se fazendo o menor no Reino dos Céus, conforme Mattityahu 5:19.

Veja: “O Eterno não muda” Malachi 3:6. “Não há sombra nem variação” Yaakov 1:17. “Não fará coisa alguma, sem antes ter revelado o Seu segredo aos Seus servos, os profetas” – Amós 3:7. “Não alterarei o que saiu dos Meus lábios” – Tehilim 89:34. “A palavra do nosso Eterno subsiste eternamente” – Yeshayahu 40:8.

Logicamente, Yeshua não poderá contradizer aquilo que foi proferido pelo Eterno, ainda que o homem assim o deseje. Tito 1:2.

Portanto, para entender o que Yeshua quer ensinar neste verso, é preciso ler todo o capítulo 15 de Mattityahu. Veja: Mattityahu 15:15-16 – “E Pedro, tomando a palavra, disse-Lhe: Explica-nos esta parábola. Yeshua, porém, disse-lhe: Até vós mesmos estais sem entender?”

Os discípulos ficaram atônitos diante daquilo que eles julgavam uma parábola. Sim, era a única conclusão. Só podia ser uma parábola. Tal conjectura é cabível, pois as instruções dietéticas de Vayikra 11 eram sagradas demais para todos os judeus, tanto para os discípulos, como judeus comuns, fariseus, irreligiosos etc. O estonteamento dos discípulos, por conseguinte, é natural, dada a posição em relação às coisas imundas condenadas e proibidas pelo Eterno.

A diferença, porém, é que, para a solução do problema e consequente esclarecimento, os discípulos foram humildemente suplicar a Yeshua, e Ele os atendeu, clareando as nuvens negras que envolveram as palavras divinas: “O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca…”

Em vez de estudar a Palavra, comparando o texto para se chegar à verdade que o versículo quer ensinar, simplesmente concordavam com aquilo que, para elas, era mais conveniente. Evidentemente, é muito mais fácil transgredir que sacrificar; ler que estudar; consentir que renunciar; transigir que obedecer. Isso é próprio da natureza humana. Mas… não é o correto!

Com os discípulos foi diferente. Tomados que foram de estupefação tal, pois, para eles, apenas ver ou sentir algo imundo lhes causava ojeriza (até da sua sombra corriam), quanto mais a ideia de comer carnes imundas, proibidas pelo Eterno.

Era inconcebível! Por isso, rogaram a Yeshua explicar-lhes tal coisa. E isso fez o Mestre, com todo amor. – Solicitemos agora que esclareça o assunto para nós.

Veja a arguição dos religiosos a Yeshua: Mattityahu 15:2 – “Por que transgridem os Teus discípulos a tradição dos anciãos? Pois não lavam as mãos quando comem pão.”

Observe que o enredo começa com uma tradição. Uma, entre as muitas tradições dos judeus religiosos, tinha preeminência: aquela de, antes de qualquer refeição, lavar as mãos muitas vezes (Marcos 7:3), como se fora uma cerimônia solene. Aliás, era de fato uma ablução imposta, um cerimonial preceituado. Lavava-se tanto as mãos não para torná-las limpas, como é normal, antes de qualquer refeição!

Simplesmente era um hábito para satisfazer a tradição dos anciãos, doutores das instruções, que faziam uma analogia do ato de se comer com a oficialização de um sacerdote em seus serviços de oferecimento de sacrifício, sendo que o senhor de uma casa era tido como o sacerdote que teria que se purificar antes de oficializar o abate e posterior oferecimento do animal no altar do Eterno, sendo assim, a mesa onde se comia era tida como um altar, onde tudo teria que representar os ditames dados aos sacerdotes. Sendo assim, criou-se a tradição chamada de Netilat Yadayim, que não se tratava simplesmente de lavar-se com sabão e água e limpar-se.

Não, não. Havia os movimentos certos que deviam ser feitos, tudo predeterminado; até a quantidade mínima de água era estipulada. Então, era preciso derramar um pouco de água nos dedos e palmas da mão, primeiro uma, depois outra, erguendo a mão o bastante para que a água escorresse pelos punhos, mas não até depois deste ponto.

Além disto, a pessoa tinha de cuidar para que a água não escorresse pelas costas da mão. E, depois, a pessoa deveria esfregar uma mão na outra, indo e vindo, para lá e para cá. Se não houvesse água nenhuma, poderia ser feita uma espécie de lavagem a seco, simplesmente fazendo os movimentos como se com água. E nunca se esquecer de proferir as bênçãos certas, antes e depois de cada etapa.

Então, estudando todo o capítulo 15 de Mattityahu, depreendemos que aqueles anciãos transgrediam os mandamentos do Eterno, mas suas pessoais tradições eram intocáveis e colocavam-nas em lugar de destaque (Mattityahu 15:3). Será que hoje ocorre ao contrário? Veja: a voz corrente de modernas religiões é adaptar-se ao mundo, fazendo o que a maioria faz, do que ouvir e fazer o que diz As Escrituras.

Mattityahu 15:7-8 – “Hipócritas, bem profetizou Yeshayahu a vosso respeito, dizendo: Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim.”

Por conseguinte, o problema suscitado naquela oportunidade não é o da comida em si, mas a maneira de se comer, isso é muito claro. O verso 2 informa cristalinamente que a dificuldade residia em lavar ou não lavar as mãos. Com relação à comida, os próprios fariseus disseram: “comer pão”. Lavar as mãos sete vezes era a tradição.

Quanto à comida, era caso encerrado: os judeus possuíam verdadeira idiossincrasia (repulsa em grau máximo) às carnes imundas, proibidas pelo Eterno. E, como Yeshua, sendo obediente ao Pai, autor da prudente, boa e sábia instrução dietética, nada mais fiel aceitar que, sobre aquela mesa cercada de gente para comer, não havia comidas proibidas pelo Eterno.

Isso é tão verdadeiro quanto comprobatório, pois, tempos mais tarde, após este incidente, Kefa declarou, alto e bom som, muito dramaticamente, quando foi pelo Eterno ordenado a comer alimentos que estavam no lençol de sua visão em Atos 10:14: “Nunca, senhor, comi coisa comum ou imunda.” Ora, não estaria Kefa mentindo para o Eterno agora, se naquele acontecimento com Yeshua ou mesmo posteriormente tivesse comido carnes imundas?

Portanto, está claro que, naquela oportunidade, quando Yeshua mencionou o verso que estamos estudando, não havia sobre aquela mesa nenhuma carne proibida pelo Eterno, e muito menos houve autorização para o seu consumo, pois, desde este incidente de Mattityahu 15 até Atos 10, passaram-se algumas décadas, e Kefa disse categoricamente, diante do lençol cheio de animais que descia do Céu: “Nunca, senhor, comi coisa… imunda.”

Bem, é possível que alguém ainda questione esta verdade, agarrando-se cegamente na declaração de Yeshua em Mattityahu 15:17: “Tudo o que entra pela boca desce para o ventre e é lançado fora.” Yeshua sempre se serviu de parábolas e expressões metafóricas, para ilustrar verdades eternas. Por isso, relativo a esse verso, não podemos fazer uma aplicação literal, porque o mestre Yeshua nunca teve tal intenção. Nem tudo o que entra pela boca vai para o ventre e é lançado fora. Por exemplo: arsênico, formicida, soda cáustica etc.

Dirá alguém: Yeshua errou? Não! Mil vezes não! Yeshua queria ensinar, com esta ilustração, não a autorização para consumir carnes que o Eterno proibiu há milênios, mas a verdade de que: Mattityahu 15:18-19 – “O que sai da boca procede do coração. E isso contamina o homem. Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias.” Yeshua usa o vocábulo “coração” para representar a faculdade que planeja e decide. Na verdade, a mente é a sede dos pensamentos e decisões. É aí onde atua o Mover do Eterno, e todos os atos e gestos são dirigidos por este comando motor (sensório). Desta maneira, estas “coisas” procedem, não do coração em si, mas da mente.

O Mestre conhecia aqueles corações. E era esta relação de impurezas que povoava suas mentes. Compreenda com clareza que Yeshua não está liberando o consumo de carnes proibidas pelo Eterno, mas sim que é o “coração” (mente) o centro de tudo no que tange aos sentimentos e, por isso, diz A Escritura: Mishlei 4:23 – “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as saídas da vida.”