É fundamental entendermos a respeito deste conceito para conseguirmos entender a passagem abaixo: “Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz e crio o mal; eu, o Eterno, faço todas estas coisas.” Yeshayahu 45.7
A primeira pergunta que deveríamos fazer é: “O que significa mal?”. Será que o que pensamos ser “mal” é aquilo que os escritores bíblicos também pensavam?
Definição
Hoje, quando uma pessoa abre sua Bíblia para ler e ela vê a palavra “mal”, o que passa pela cabeça desta pessoa é: “Maligno” ou “devassidão”. Porém, para os escritores bíblicos, a palavra “mal” tem outro significado e, conforme a concordância Strong עָר (rã’), significa “adversidade”.
O conceito de mal, conforme o pensamento ocidental, está mais relacionado ao Maligno, que é algo puramente mal, e todo mal provém deste, jamais associando coisas más a outras fontes. Porém, vamos analisar no Tanack que o conceito semita não compreendia desta forma.
Analisando o Tanack
A primeira passagem que vamos analisar é uma ação que vem do Eterno. A palavra rã’, que foi traduzida como “maligno”, tem uma ideia de dano, pois a doença é um dano à saúde, e os danos e prejuízos eram expressos pela palavra rã’.
“O Eterno te ferirá com úlceras [עָ֗ ָר – rã’] malignas nos joelhos e nas pernas, de que não possas sarar, desde a planta do teu pé até ao alto da cabeça.” Devarim 28.35
Abrindo um parênteses, muitas pessoas atribuem doenças aos demônios, reconhecendo autoridade, poder e força a estes, porém a Torah nos mostra o contrário: esta doença vem do Eterno e devemos reconhecer que é uma doença bastante feia e é um mal à saúde da pessoa que a contrai.
Além deste dano físico, também temos outras aplicações deste conceito. Todos sabem o quanto pode ser nocivo um boato falso, uma mentira ou uma fofoca. Por conta de falsos boatos, pessoas já perderam a vida ou, em casos menos trágicos, perderam emprego, casamento, etc. Portanto, o ato de divulgar um falso boato é em si um ato danoso, pois traz dano a alguém.
“E lhe imputar coisas escandalosas, e contra ela divulgar má [עָ֑ ָר – rã’] fama, dizendo: Tomei esta mulher, e me cheguei a ela, porém não a achei virgem;” Devarim 22.14
A ideia expressa não é a de um ato perverso, mas sim a de um ato que traz dano a uma mulher.
Outro caso curioso que podemos analisar sobre os boatos é este abaixo:
“Para isto o subornaram, para me atemorizar, e para que assim fizesse, e pecasse, para que tivessem alguma causa para me infamarem [עָ֔ ָר – rã’], e assim me vituperarem.” Nechemyahu 6.13
Neste caso em específico, não se trata de um falso boato, mas se trata de uma trama para causar um ato digno de reprovação e assim trazer acusações, não que estas fossem falsas, mas acusações a respeito de um ato ruim que o mesmo foi induzido a cometer.
Ainda abordando sobre o ato de falar, temos outro caso curioso em que rã’ está ainda menos associado à ideia de maldade.
“Então responderam Laban e Betuel, e disseram: Do Eterno procedeu este negócio; não podemos falar-te mal [עַ֥ ר – ra’] ou bem.” Bereshit 24.50
Falar mal ou bem significa falar negativamente ou positivamente. Em nada tem a ver com maldade ou perversidade, mas apenas tem a ver com dar uma resposta contrária às expectativas.
Agora vamos analisar um caso ainda mais curioso, pois a palavra rã’ não está associada a uma ação, mas simplesmente a um problema genético.
“Porém, havendo nele algum defeito, se for coxo, ou cego, ou tiver qualquer defeito [עָ֑ ָר – rã’], não o sacrificarás ao Eterno.” Devarim 15.21
A palavra rã’ aqui expressa um defeito físico e em nada está associada a coisas malignas. Aqui temos apenas uma ideia de um dano genético no animal.
Na passagem abaixo, veremos uma conversa entre Laban e Yaacov, na qual Laban correu atrás de Yaacov, revoltado pelo mesmo ter ido às escondidas e ainda ter seus ídolos que foram furtados por Rachel, sem que ninguém soubesse.
“Poder havia em minha mão para vos fazer mal [עָ֑ ָר – rã’], mas o Elohê de vosso pai me falou ontem à noite, dizendo: Guarda-te, que não fales com Ya’aqov/Jacó nem bem nem mal [עָֽ ָר – rã’].”
Bereshit 31.29
Aqui nós temos duas ocorrências de rã’, onde a segunda tem o mesmo sentido já analisado, na qual rã’ está expressando uma fala de forma negativa. Já a primeira ocorrência tem um significado distinto da segunda, e esta expressa uma ideia de dano conforme já vimos. Lãvãn tinha em suas mãos poder para dar caça à Yaacov e inclusive matá-lo, caso fosse necessário, e esta é a ideia de rã’, é a ideia do dano ao qual Yaacov estava suscetível.
No versículo abaixo, vemos ainda um caso mais interessante, onde a palavra rã’ tem um sentido distinto do que vimos até agora, mas certamente está associado.
“E entravam em suas entranhas, mas não se conhecia que houvessem entrado; porque o seu parecer era feio [עָ֔ ר – ra’] como no princípio. Então acordei.” Bereshit 41.21
Rã’ aqui foi traduzido como “feio”, e esta tradução não está incorreta, mas o que o texto traz é que estas vacas tinham um aspecto feio devido à sua aparência debilitada e danificada.
Além de rã’ ser usado para descrever a aparência, ele ainda pode ser utilizado para descrever um estado de ânimo, conforme abaixo.
“Sucedeu, pois, no mês de Nisã, no ano vigésimo do rei Artaxerxes, que estava posto vinho diante dele, e eu peguei o vinho e o dei ao rei; porém eu nunca estivera triste [עַ֖ ר – ra’] diante dele.”
Nechemyahu 2.1
Desta vez, rã’ descreve uma pessoa que se encontra abatida e, por isso, rã’ foi traduzido como “triste”, pois, afinal, quem está triste assim está devido às adversidades da vida, e estas mesmas adversidades fazem com que a pessoa fique com aspecto abatido e desanimado.
Por fim, vamos analisar rã’ como um adjetivo para os homens.
“Então todos os maus [עָ֗ ָר – rã’] e perversos, dentre os homens que tinham ido com David, responderam, e disseram: Visto que não foram conosco, não lhes daremos do despojo que libertamos; mas que leve cada um sua mulher e seus filhos, e se vá.” Shmuel Aleph 30.22
Os homens maus são os homens que causam danos aos demais. Neste caso, existe ainda uma ênfase que foi dada com o uso da palavra “perversos” para acentuar que são homens que agem sem pudor ou moral.
Revelando a idolatria
Como vimos no início do artigo, o versículo de Yeshayahu traz muitas dúvidas em muitas pessoas e, com estas dúvidas, as mais diversas interpretações. Mas devemos nos aprofundar melhor no pensamento daqueles que escreveram as Escrituras para compreendê-las. E agora que já nos aprofundamos, podemos entender com mais clareza o que o Profeta quis dizer com o versículo abaixo:
“Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz e crio o mal [rã’ – עָ֑ ָר]; eu, o Eterno, faço todas estas coisas.” Yeshayahu 45.7
As palavras “trevas” e “mal” estão diretamente ligadas à figura de um ser maligno, conforme o pensamento ocidental, mas não é bem isso o que o pensamento semita trazia. O Profeta fala, sem nenhum medo de errar, que o Eterno cria as trevas e que Ele também cria o mal.
O mal de que o Profeta está falando é o dano, o prejuízo, a adversidade. E, com isso, podemos afirmar que o Eterno é o mal? De forma alguma! Como foi mostrado, existem várias formas de aplicar a palavra mal, e este mal é o meio que o Eterno utiliza para o bem final. Como, por exemplo, a doença que Ele mesmo suscita na pessoa como um castigo. E qual é a finalidade do castigo? É a correção!
Além do mal diretamente causado, existe o indireto, que são consequências dos atos naturais. Vou dar um exemplo disto: quando cai um raio sobre uma casa e lá tudo se incendeia e tudo se perde. Isto significa que os residentes daquela casa eram pecadores? Não exatamente! Apenas ocorreu uma simples causa natural, mas que, para aquelas pessoas, aquilo foi um mal, um dano, um prejuízo, etc.
A questão é que, para as pessoas, é algo muito difícil de compreender o porquê de elas estarem sofrendo tais adversidades. As pessoas sempre querem entender o porquê de cada coisa e, por isso, na antiguidade, as pessoas começaram a separar as divindades, criando deuses bons e deuses maus.
Logo, os deuses bons faziam tudo aquilo que era bom, e os deuses maus faziam tudo o que era mal. Isso foi mudando com o tempo, e as divindades que eram más, com o tempo, passaram a ser subdivindades e foram chamadas de demônios. Antes, as divindades más eram adoradas, mas, mesmo com cultos e adorações, coisas ruins continuavam acontecendo.
Devido a isso, os povos rebaixaram as divindades más a subdivindades e, em vez de adorá-las, rejeitaram-nas. Rebaixar uma divindade má em subdivindade foi uma ótima ideia para tais povos, pois isto traz um conforto para tais pessoas, uma vez que as subdivindades não são tão poderosas quanto as divindades, dando a sensação de proteção e amparo por parte das divindades boas. Isto fez com que as divindades boas fossem ainda mais adoradas e as subdivindades más (demônios) acabaram sendo o bode expiatório para tudo aquilo que ocorria de ruim.
Porém, o Eterno diz, através de Seu profeta, que não existem subdivindades ruins, mas que Ele é a fonte de todas as coisas. Aquilo que é bom, Ele o fez! E aquilo que é mal, Ele também o fez para a correção daqueles que O desobedecem. E este é o monoteísmo absoluto, pois é acreditar que somente o Eterno é e que não há divindades ou subdivindades além Dele!
Conclusão
Podemos ver claramente que, conforme o Tanack, o conceito de “mal” era bem diferente daquilo que a maioria compreende hoje. Percebemos que a ideia de “mal”, conforme as Escrituras, é algo que está relacionado ao comportamento humano ou a adversidades e em nada tem relação com seres malignos.